GLOBO REPÓRTER • REPORTAGEM • 10/2/2006
Globo Repórter mostra as incríveis histórias de brasileiros que ficaram ricos de repente
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Dizem que pelo gado se conhece o dono. Mas pouca gente sabe o nome do dono de um rebanho no interiorzão paulista. Ele é apenas "o milionário". Milionário que já foi pobre e não esquece a vida dura de pedreiro na cidade grande.
O fazendeiro Valmir Amorim lembra que já assentou muito tijolo. "O capacete me protegia do sol e era meu prato. Eu comia nesse 'bicho'. Entrava na fila de uns 200 peões, pegava arroz, feijão e mistura e comia com um pedaço de pau", conta.
Valmir comeu o pão que o diabo amassou. Mas, de uma hora para outra, a loteria mudou o gosto da vida do pedreiro. Valmir se viu com mais de 700 milhões de cruzados nas mãos. Perto de R$ 12 milhões.
Incrível é que ele não se surpreendeu: apostou com tanta certeza que passou quatro noites sem dormir, antes do sorteio. Ficou de olhos bem abertos, só planejando como iria gastar o dinheiro.
Por que ele? "Acho que é porque eu pensava nos outros e não tanto em mim. Se ganhasse, ajudaria Fulano, Cicrano... Muita gente joga pensando em si e não no próximo", diz Valmir.
Dinheiro na mão, ele começou pelo grande sonho: comprou uma fazenda. A vida no campo é dura – trabalho que nunca termina. Mas é tudo que Valmir queria. Na vida deste peão, o tempo e o dinheiro só não mudaram uma coisa: a família vem sempre em primeiro lugar.
Na época do prêmio, em 1988, o Jornal Nacional mostrou a simplicidade da turma de Valmir. O aposentado Durval Amorim nem precisou se preocupar – sempre andou no coração do filho. Homem de ambições simples, ele só queria um caminhãozinho para trabalhar. Já ganhou três.
O pai de Valmir acha que o dinheiro fez bem para seu filho. "Ele soube usar. Sempre que alguém tem muito, desperdiça alguma coisa. Mas ele aproveitou bem", garante seu Durval.
"Eu queimei bastante porque tinha bastante, mas preservei e estou com o capital que eu ganhei. Se brincar, dá mais", avalia Valmir. "Quando você ganha na loteria, assume um compromisso muito grande. Sua vida muda muito. A primeira coisa que o cara esquece é a responsabilidade", acrescenta.
A dona de casa Adália que o diga. A mãe dos três filhos de Valmir agüentou firme as extravagâncias do novo rico. "Deus me livre! Era muita mulher atrás dele", conta.
Valmir resume como soube que Adália era a mulher da vida dele: "Pelo desaforo que ela agüentou. Eu já cheguei a tirar 51 carros zero de uma concessionária. Todo dia eu estava com um carro diferente. E pensei: pra quê? Numa exposição, arrematei todos os carros da noite. E, para completar, comprei oito pandeiros. Voltei para casa pensando: pra que oito se o cara só toca um?", comenta Valmir.
Mas não foi só gastança. Muita gente necessitada ouviu o som do dinheiro de Valmir.
"Minha filha estava com um probleminha, e ele me ajudou a pagar consulta, medicamentos. Foi generoso. Eu devo muito favor a ele", diz a funcionária da prefeitura Fátima Aparecida da Silva.
Hoje o ritmo é outro. Valmir não tem dinheiro para esbanjar. Foi quase tudo aplicado na fazenda de gado, que exige investimentos e muito trabalho.
"Ele pega no pesado: trabalha com trator, mexe com gado, faz qualquer serviço. É praticamente igual a mim", comenta o trabalhador da fazenda Cláudio de Araújo.
Valmir reconhece: ganhou muito dinheiro, mas, se bobear, dá para ficar pobre de novo. "Se eu tivesse dado uma vacilada no começo, não teria mais nada. Eu ganhei no Plano Cruzado e depois, no Plano Collor, estaria sem nada se não tivesse comprado terra e caído na ambição dos juros", diz ele.
Aos 41 anos, Valmir sabe que dinheiro não aceita desaforo. Mas ninguém tira da cabeça dele a certeza que traz desde os tempos de menino: ser um afilhado da sorte. "Aos 15 anos, eu cuidava de animais para meu pai na beira das estradas e já tinha muita ambição. Falava que com fé em Deus eu ainda teria meu pedaço de terra para pôr aqueles animais porque aquilo não era vida", conta.
Vida boa, Valmir conquistou com muita sorte. Nisso ele não economiza: continua a jogar toda a semana na loteria. Para fazer a aposta, o milionário tem lá seus segredos. É preciso bons ouvidos para escutar as mensagens da fortuna.
Valmir não foi o único ganhador daquela bolada de 18 anos atrás. Quando fez a aposta, jogou dez cartões: dois deles tinham os mesmos números. Acabou dividindo o prêmio com ele mesmo! Acha pouco? Então veja como foi a escolha das dezenas.
"No dia 2, cheguei em São Paulo. No dia 3, comecei a trabalhar. Fui internado no dia 7 e saí do hospital no dia 8. Eu ganhava 31 por hora e 43 foi o aumento por hora trabalhada. Tinha lógica", justifica Valmir.
Lógico? Lógico é grudar neste sortudo. Antes de sair da cidade, a equipe do Globo Repórter deu um pulinho com ele na lotérica. “No ano passado, ganhei 12 Quadras e uma Quina. Acerto quase toda semana”, disse Valmir. Mas se você assistiu ao programa na TV, é porque ninguém ganhou.
Até o começo do ano, a maratonista Elisete Pereira achava que prêmio era resultado de treino e preparação. "Consegui meus prêmios sempre com muito suor, nada vem de graça", diz ela, que é especialista em corridas de longa distância e coleciona medalhas – todas conquistadas com muito sacrifício.
"Não conta muita sorte. O que conta é a preparação que a gente tem", ressalta a atleta. Outros tipos de prêmios – aqueles distribuídos por sorteio ou loteria –, Elisete se lembra de ter ganhado poucos e bem simplezinhos. "Há dois anos eu ganhei um jogo de cama de casal”, conta.
A sorte de Elisete começou a mudar quando ela comprou um celular e ganhou 30 cupons para concorrer a um carro zero. Os 30 papeizinhos preenchidos foram parar em uma urna gigante. Junto com eles, outros 560 mil cupons de clientes de outras lojas que também estavam na disputa. Ainda bem que Elisete não acompanhou o sorteio.
Foi seu Jonel Chede, ex-presidente da Associação Comercial do Paraná, quem tirou o cupom premiado da urna. "Eu gravei o nome de dona Elisete Pereira. Porém, a homologação era do auditor, e ele disse que estava incompleto", conta.
O problema é que o cupom sorteado com o nome de Elisete não tinha o carimbo da loja que vendeu o celular – uma exigência do regulamento para evitar falsificações. Seu Jonel teve, então, que tirar um novo nome.
A urna foi remexida e não é que saiu, de novo, o nome de Elisete! Dessa vez, estava tudo certinho, com carimbo no verso como exigia o regulamento. O carro zero era mesmo de Elisete.
"É difícil de acreditar, mas é um fato. E, ao mesmo tempo, ela estava predestinada a ser sorteada", comenta seu Jonel Chede.
Como Elisete depositou na urna 30 cupons e teve o nome sorteado duas vezes, ainda estão lá dentro 28 cupons com o nome dela. Só por curiosidade, sem nenhum rigor científico, a equipe do Globo Repórter simulou um novo sorteio. Em cinco chances, apareceram os nomes de Marcelina, Ricardo, Dirce, Marli e Simone. Se existe o tal dia de sorte, aquele era o de Elisete.
Segundo os matemáticos, o que aconteceu com Elisete ocorre uma vez em 360 milhões de tentativas. É muito mais difícil do que acertar na Mega-Sena.
"Olhando aquela urna, tão grande e tão cheia de cupons, posso dizer que sou sortuda mesmo", diz Elisete.
Agora, o dono da loja onde Elisete comprou o celular se diverte ao lembrar que a falta de um carimbo quase tirou o prêmio da cliente sortuda. "Era para ser dela mesmo", diz.
Elisete vendeu o carro. Com o dinheiro, vai ampliar a casa onde mora e viajar para disputar corridas na argentina e no Chile. "Esse dinheiro veio numa hora ótima", comemora ela.
Ela sabe que foi personagem de uma história rara. Mas, quando viu que a livraria da qual é freguesa estava sorteando carros numa promoção, não resistiu e preencheu os cuponzinhos outra vez. "Numa dessas, quem sabe o ano é de sorte e eu ganhe de novo. Não custa arriscar", conclui.
Dileta e Orizontina: unidas pela vida; separadas pela sorte. Há 12 anos, a dona de casa Dileta Duarte não tira da cabeça a bolada do concurso 339 da Sena. Ao arrepio da fortuna, a gaúcha continuou a viver na casinha simples de madeira, repartida com filhos e netos.
Do antigo salão de beleza, sobraram o lavatório empoeirado e a placa que prometia visual novo. Dona Dileta acha que foi preferida pela sorte. Azar foi ter feito sociedade com uma falsa amiga. "Ela é como Judas, que traiu Jesus", compara.
Entre a amizade e a traição, seis dezenas e R$ 900 mil. Foi em setembro de 1994. O prêmio gordo saiu para Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul. A ganhadora foi dona Orizontina dos Santos, que vendia produtos de beleza de porta em porta. Mas dona Dileta jura que metade do volante premiado era dela, comprado em sociedade com a ex-amiga.
Era sempre assim: numa semana o bilhete ficava com Orizontina e, na próxima, com dona Dileta. Falta de sorte da ex-cabeleireira é que, na vez da vitória, a prova ficou com a outra.
"Ela começou a fugir de mim. Eu ligava, ia até a casa dela, e ela não aparecia", conta dona Dileta. "Nós éramos grandes amigas. Ela me tratava por mana, dizia que eu era a irmã que ela não tinha".
Irmãs, claro, mas com certa cautela. Dona Dileta mostra um documento que a própria dona Orizontina teria exigido. Uma espécie de contrato, dizendo que as duas eram parceiras na jogatina. O documento se voltou contra a suposta autora. Virou prova fatal no processo que dona Dileta move contra dona Orizontina. A ex-cabeleireira exige metade do prêmio.
"Ela sustenta até hoje que não assinou aquele documento e que ele seria forjado", diz o advogado de dona Orizontina, Carlos Alceu Machado.
"Nós não temos somente essa declaração. Temos também as testemunhas que firmaram o documento e alguns comprovantes de apostas que ratificam o modo repetido de apostar da nossa cliente", defende o advogado de dona Dileta, Davi Nasser Khouri.
Da antiga sócia de apostas, dona Dileta só não quer uma casinha na Vila Operária, um bairro popular da periferia de Passo Fundo, porque esta era a casa onde dona Orizontina já vivia antes de as duas ex-amigas tirarem a sorte grande. Mas o resto dona Dileta faz questão de tudo. Especialmente da nova casa de dona Orizontina.
O dinheiro do prêmio promoveu um progresso visível no padrão habitacional da antiga vendedora. Hoje, quando está no Brasil, ela vive em uma casa espaçosa, de alvenaria, construída num bairro melhor.
A equipe do Globo Repórter foi procurá-la, mas ela viajou para visitar o filho, que mora nos Estados Unidos. Pelo telefone, nossos repórteres falaram com o marido de dona Orizontina, que também está nos Estados Unidos. Seu Gaspar afirmou que foi ele o autor da aposta e que nunca existiu a tal sociedade. Resumindo: ele acusou dona Dileta de falsificar o contrato.
"Nós tínhamos assinado de avalistas. Ela conseguiu pegar uma folha em branco e fazer minha esposa assinar, dizendo que precisava desse documento na imobiliária. Se fosse para me incomodar desse jeito, eu preferia ter ficado como estava. A gente nunca mais teve paz", disse seu Gaspar.
Paz, dona Orizontina não vai ter enquanto não dividir o prêmio com a ex-amiga. É o que garantem os dois advogados de dona Dileta. Eles já conseguiram vitória em todas as instâncias da Justiça. Falta esclarecer detalhes da partilha, o que será feito pelo Superior Tribunal de Justiça.
Mas os números são cruéis mais uma vez com dona Dileta. Hoje, metade do prêmio que dona Orizontina embolsou equivale a mais de R$ 3 milhões. Só que o dinheiro sumiu. O patrimônio de dona Orizontina, penhorado pela Justiça, não paga nem metade da dívida.
A tranqüila Uberlândia anda agitada com a história do tal vigilante que virou milionário. "É ridículo", critica um morador da cidade. O vigilante foi a pé até a casa lotérica mais próxima do local onde trabalhava, escolheu seis dezenas e fez a aposta mais simples da Mega-Sena – jogou apenas um cartão, que, na época, custava R$ 1 – e levou o prêmio que estava acumulado havia dois meses. E que prêmio: R$ 30 milhões. E quanta sorte! Palavra do professor de estatística Marcelo Tavares, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
"A chance de ganhar o prêmio é algo em torno de um em 50 milhões. Algo próximo a jogar uma moeda 20 vezes para cima e sair cara em todas as jogadas", explica o professor.
"Talvez ele pudesse ter feito melhor e terminado essa história mais feliz do que está agora", comenta comenta a dona da casa lotérica, Varlei Parapinski.
"Não desconfiei de nada...", conta a ex-mulher do ganhador. A dona de casa prefere esconder o rosto, mas não a mágoa do ex-marido, o vigilante sortudo. "Antes, a gente não tinha nada e vivia junto", diz ela. E vivia em uma casa simples, hoje abandonada, quase no centro de Uberlândia.
"Morei três anos nesta casa, com meu ex-marido, minha ex-sogra e meu ex sogro. Não tinha cama – o colchão ficava em cima de um caixote", lembra. "O sorteio foi no dia 19. E no dia 21 ele me chamou para separar", conta.
Ao sair de casa, o ex-vigilante não conseguiu mais esconder a riqueza. Começou a gastar a fortuna comprando roupas novas, carros zero quilômetro. "Um dia eu perguntei se ele tinha comprado carro e ele respondeu que não, que era o patrão que deixava ele usar. Aí eu fiquei admirada. Todas as vezes que ele ia ver a menina estava com um carro diferente, se vestia diferente. Ia com anel de ouro, corrente de ouro, pulseiras, relógio", conta a ex-mulher.
Sem contar as fazendas e apartamentos. Só em um cartório, mais de dez imóveis estão no nome dele. O ex-vigilante também construiu um prédio de oito andares, que ganhou o nome com as iniciais do proprietário. Por ordem da Justiça, todos os imóveis dele estão indisponíveis: não podem ser vendidos nem doados, por exemplo. A decisão de proteger o patrimônio é para garantir que a ex-mulher receba o que tem direito.
"Já trabalhei com muitos casos difíceis, mas semelhante a esse não. Essa senhora demonstrou uma coragem, uma certeza tão grande dela, que nos impressionou. Ela buscou a Justiça com toda a segurança", comenta o juiz Alfredo Barbosa Filho.
Mas, por enquanto, ela tem a sentença, não o dinheiro. Enquanto aguarda o prêmio, a ex-mulher do novo rico continua ganhando salário mínimo. Trabalha como funcionária pública e mora na casa da mãe. Do ex-marido, recebe apenas uma pensão de R$ 450 para a filha de 12 anos.
A equipe do Globo Repórter foi procurar o sortudo, que mora na cobertura de um prédio. "Ele não está, mas vai voltar hoje", respondeu o porteiro.
"Quero que a justiça seja feita. Vai ser uma guinada muito grande na minha vida, mas, no momento, eu penso na educação e no futuro da minha criança", diz a ex-mulher do sortudo.
O jeito matuto é o mesmo de 30 anos atrás. Mas o sorriso... Era o jogo 254 da loteria Esportiva. Resultado difícil, poucas chances. O fazendeiro Miron Vieira de Souza foi o sortudo que virou notícia. Ganhou sozinho um dos maiores prêmios da Loteca na época. E era o dia do aniversário dele. Que presente!
Ele guarda na parede as lembranças do dia da virada, como a foto da casa lotérica onde fez a aposta. Fotos dos momentos de celebridade vividos em Iporá, interior de Goiás. Ele conta que tirou uma foto do cartão premiado para guardar de recordação e mostrar aos netos.
Seu Miron ganhou 22 milhões de cruzeiros, o que hoje equivale a mais ou menos R$ 5 milhões. Para quem tirava o sustento trabalhando numa pequena mercearia no interior de Goiás, o prêmio trouxe a chance de realizar um velho sonho: ser fazendeiro. E ele aplicou o dinheiro em terras.
O balconista que ganhava um salário mínimo e só sabia assinar o nome conseguiu formar um pequeno império: terras até onde a vista alcança, quilômetros de cerca e boiada no curral.
Cassiano Vieira Vilela, um dos netos, já nasceu no tempo das vacas gordas. "Ele é um exemplo para mim e eu vou dar continuidade à fazenda e levar seu nome adiante", afirma.
O avô não se agüenta de orgulho. "Ele é como um comandante da família. Está sempre observando as pessoas. Se alguém tem um problema, ele ajuda. É o centro da família", diz Cassiano, que, por isso, chama o avô de "chefinho".
Seu Miron não é mais um milionário. Vive bem e conquistou o que para ele é a maior riqueza de um homem: "A família unida e os netos encaminhados", diz, orgulhoso.
Já são três gerações beneficiadas pelo dinheiro do prêmio. A paixão pela pecuária passa de avô para neto. Cassiano e Conrado são os netos mais velhos. Desde pequeno, o presente de aniversário era sempre um bezerro. De bezerro em bezerro, eles já têm uma boiada.
"Hoje já temos nossa fazenda, com umas 70 reses de gado leiteiro e outras 40 de rodeio", conta Conrado.
Os dois rapazes já são independentes financeiramente. Aprenderam com o avô a valorizar as conquistas. "Ele queria algo de bom para nós. Se eu ficasse parado, não seria certo. Então, fomos juntos”, diz Cassiano.
O tino para os negócios veio do pai e do avô. É chefinho... Que vitória! Saber que tirar a sorte grande foi mais que ganhar na loteria, foi dar à família a chance de construir um futuro tranqüilo.
A música é uma das poucas lembranças dos tempos de fortuna. Quando ganhou na loteria, 29 anos atrás, a professora Maria José de Lima realizou o sonho de ter os discos do ídolo. "Meu pedido foi um só: a coleção completa dos discos do Roberto Carlos, que era o que eu gostava", lembra Mazé.
Ela entendia pouco de futebol, mas marcou os 13 pontos da loteria Esportiva. Como? Apostou num empate no jogo Brasil e Colômbia, em 20 de fevereiro de 1977. "Deu zebra: o jogo empatou. Foi quando eu ganhei", conta Mazé.
Três milhões e 700 mil cruzeiros. Em dinheiro de hoje, seriam R$ 700 mil. Quando ganhou na loteria Esportiva Mazé tinha apenas 14 anos de idade. Em Quixadá, no sertão do Ceará, a menina sortuda virou personalidade ilustre. Na época, os moradores que iam tentar a sorte na casa lotérica precisavam enfrentar duas filas: uma para fazer o jogo e a outra, antes, para pegar um palpite à nova milionária.
"Até hoje essa história repercute, tanto que eu estou aqui querendo que ela me dê essa chance", diz a comerciária Iraci Pinheiro.
"Já houve outros prêmios depois, mas um grande prêmio como o que a Mazé ganhou foi inédito", diz o dono da casa lotérica Rosemir Ferreira.
A fama dura até hoje, mas aonde foi parar tanto dinheiro? Como Mazé era menor de idade, quem recebeu o prêmio foi o pai dela. Zé Abílio comprou um carro novo, duas casas e um sítio para a família. Mas a maior parte do prêmio ele investiu numa velha paixão: o time do Quixadá. Comprou uma sede para o clube, fez novas contratações, melhorou muito a vida dos jogadores.
"Ficamos com ‘terno novo’: aquelas camisas furadinhas, bem maneirinhas. Aquilo era um alívio para nós, que jogávamos num sol quente. Na época dele, o Quixadá melhorou muito", conta o ex-jogador Francisco Almeida.
No reencontro com Mazé, os ex-atletas relembram que o prêmio dela deixou o time todo com salários em dia. "A maior dificuldade do Quixadá era manter a folha. E seu Zé Abílio bancava tudo depois que ganhou o prêmio", diz o ex-jogador Rogeres Moreira.
O pai de Mazé morreu há 13 anos. O nome dele ficou no único estádio da cidade. Mas hoje, nem todos os jovgadores do Quixadá sabem quem foi o "Abilhão".
"Acredito que ele tenha sido uma pessoa importante na cidade e, para homenageá-lo, colocaram seu nome no estádio. Mas não sei quem ele foi", diz o jogador Jacinto Gomes do Nascimento.
Zé Abílio queria levar o Quixadá para longe. Até hoje, o time nunca saiu do Campeonato Cearense. Mazé também nunca mais jogou. Diz que é por falta de tempo e jura que não guarda mágoas do pai gastão. "Em momento nenhum eu pensei em ficar chateada com ele porque ele tinha o sonho de ganhar para ajudar o time. O sonho que ele realizou foi o maior prêmio", conclui Mazé.
O repórter que sai às ruas para contar a história dos ganhadores de loterias também sonha. Junto com milhares de pessoas, pensa em mudar de vida se a fortuna, um dia, bater à porta.
E essa história foi vivida na redação, na sede da EPTV em Campinas, interior de São Paulo. Era o dia 14 de novembro de 1988. De um bolão de apostas, dividido entre os funcionários em 34 cotas, saiu o único bilhete premiado. Eles se tornavam os ganhadores do maior prêmio da loteria pago até então.
"A sorte passou por quase todos os departamentos da emissora, menos um, justamente onde eu trabalho. Aqui ninguém ganhou nenhum tostão do prêmio da Sena. E apesar da alegria pelos novos colegas milionários, o que se percebia no rosto dos colegas era uma certa frustração", anunciou, na época, o repórter Ciro Porto.
Não se falou outra coisa durante dias. Todos imaginando o que fariam se tivessem a mesma sorte e desejando fazer o mesmo que um ex-colega que pediu demissão assim que soube que estava rico. "Fui aproveitar um pouco a vida. Ficava um mês no Rio, um mês na Bahia, outro mês em Natal", conta ele, que não quer se identificar.
"Na hora que eu cheguei, vi aquela muvuca. Tinha repórter, a imprensa toda na frente. Eu fico até arrepiado!", diz o jornalista Josias Francisco.
"Eu comecei a ouvir um grito aqui, um grito ali. Isso aqui virou uma gritaria. Foi uma explosão de felicidade", conta o publicitário Rodolfo Rufeisen.
Ninguém sabe por onde anda o organizador do bolão, mas o que ninguém esquece é como ele convencia cada um a participar. "Ele disse o seguinte: 'Eu tive a visão de que vou ganhar na loteria. E como é muito dinheiro, quero repartir com bastante gente'", lembra Rodolfo.
O prêmio foi mesmo grande. Em moeda corrente do final dos anos 80, bilionário! Quase 2,5 bilhões de cruzados (Cz$ 2.313.357.619,00).
"O seu valor hoje seria algo em torno de R$ 22 milhões", avalia o economista Cláudio Dedeca, da Universidade de Campinas (Unicamp). O economista fez muitos cálculos. Levou em conta não só a correção monetária, mas a interferência de planos econômicos, que mudaram bem mais do que o nome do nosso dinheiro. Cortados tantos zeros, os 68 milhões que cada um recebeu na década de 80 equivaleriam hoje a quase R$ 700 mil (R$ 647.665,28). Dava para fazer muita coisa.
"Comprei casa, apartamento. Tinha duas motos: uma branca e outra preta", conta o ex-funcionário.
"Na semana seguinte tinha 34 carros novos aqui na porta", conta Rodolfo.
Josias foi um dos muitos funcionários que não entraram no bolão.
"Do meu lado tinha uma pessoa que falou ‘não’, virou as costas e foi embora. No dia seguinte, essa pessoa chorou horas seguidas", lembra Rodolfo.
"Agora, se eu fico sabendo que tem um jogo rolando, faço questão de participar. Já pensou se o raio cai duas vezes no mesmo lugar?", diz Josias.
Sorte e azar. Duas faces de uma mesma moeda. Nos bastidores deste jogo, até os vencedores do prêmio, passada a euforia, tiveram que lidar com os limites entre ganhar ou perder na hora de administrar o dinheiro. Em 1988, segundo o IBGE, a inflação fechou o ano a 1.200%.
"Na moeda corrente de hoje, com a inflação atual, penso que ficaria mais fácil de administrar o prêmio e andar para frente”, diz o gerente de concessionária Moacir Lopes.
“Não foi uma coisa que mudou minha vida, mas, sem dúvida, serviu de alicerce para o resto”, reconhece Rodolfo.
E serviu também de estímulo para continuar apostando. No bolão ou sozinho? "No bolão, sempre no bolão", afirma o ex-funcionário.
“Ou todo mundo ganha ou todo mundo perde. É a união”, brinca um funcionário da EPTV.
Em novembro de 1977, o aposentado Adhemar Salgado cravou 13 pontos na Loteca. O concurso era o 365. "Quando fechamos os 13 pontos foi aquela vibração", conta o ele. Mas deu zebra! "Você faz o jogo, ganha e depois uma pessoa vem dizer que o jogo não existiu?", questiona seu Adhemar.
Seu Adhemar foi vítima de um erro da Lotérica. O lojista recebeu a aposta, mas não a repassou para a Caixa Econômica Federal. Pode ter sido distração ou golpe. O fato é que seu Adhemar ganhou, mas não levou. O prêmio estaria hoje em R$ 150 mil. "Na época, eu compraria uma casa em Bauru", conta seu Adhemar.
Sem o dinheiro que a sorte lhe reservou, seu Adhemar criou os quatro filhos com sacrifício. Foi viajante em São Paulo, abriu loja no Rio, virou funcionário público, teve um infarto. Levou as filhas ao altar, ganhou genros e netos, e nada de prêmio. O calote da sorte virou piada familiar.
"Quando eu conheci a Simone, na primeira conversa ele já me falou que tinha esse dinheiro", brinca o administrador de empresas Fabio Eduardo Pinho, genro de seu Adhemar.
Seu Adhemar entrou na Justiça e ganhou várias vezes. Mas, a cada derrota, a Caixa Econômica recorre a uma instância superior. Há três meses, o caso foi parar em Brasília. Aos 66 anos, seu Adhemar acha que hora dessas o prêmio ainda aparece.
Quase três décadas de frustração e revolta deixaram suas marcas. Vacinado, ele não arrisca mais no jogo. Mas seu Adhemar encontrou sua sorte: "O grande prêmio foi a Heloísa", diz ele, referindo-se à esposa.
Esta é a história de um colecionador de sonhos. Os olhos do aposentado Edmundo Jesse já brilharam de alegria com o resultado das apostas feitas na vida. E não foi uma, duas, três, quatro ou cinco. Foram seis prêmios ganhos na loteria.
Para conhecer o homem da sorte, a equipe do Globo Repórter viajou 500 quilômetros de Porto Alegre até a pequena Giruá, quase na fronteira com a Argentina. Se ele é o sortudo da cidade? "Não digo sortudo, mas já acertei algumas vezes", pondera. Na oficina do irmão, seu Edmundo encontra amigos e relembra as histórias da vida boa.
A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (SIGLA) calcula que, somados, os seis prêmios valeriam hoje R$ 62 mil. Parece pouco, mas para a época, com apenas um dos prêmios seu Edmundo comprou um caminhão, dois terrenos, uma casa e pagou contas. O resto... Bem, ele já contou: foram as festas.
O ex-caminhoneiro, que mora em uma casa com a segunda mulher, vive do salário mínimo da aposentadoria. Mas nas ruas de Giruá, ele nunca abandonou um certo "ar de vencedor". Principalmente quando o destino é a casa lotérica, onde seu Edmundo encontra gente cheia de esperança e velhos conhecidos, como o ex-patrão, Alcides Kitzmann. "Pensei que ia ganhar uma bolada também", diz o patrão, lembrando o momento em que soube que seu empregado havia ganhado na loteria. "Ganhei mais amizade", brinca.
Ter acertado seis vezes na loteria não é a única coisa que deixa seu Edmundo tão orgulhoso. Porque ele não é só um colecionador de sorte: é também um colecionador de bilhetes. Acreditem ou não, ele guarda em casa 20 mil volantes. São 28 quilos de papel, que contam parte da história da loteria no país: da loteria Esportiva, Mega-Sena, Super-Sena, Loto e Quina. Tudo organizado em álbuns feitos com cartolina, paciência e dedicação de quem registra a história da própria esperança.
Como quem cuida do diário de um filho, nada escapou da observação e do controle de seu Edmundo: greves que cancelaram concursos, mudanças de cores, todas as novidades. Ele garante que nem a Caixa Econômica Federal tem um arquivo como o seu.
Os cartões premiados ganharam molduras, e o homem de tanta sorte que virou garoto propaganda enfeita a parede da casa. Faz tempo. São 16 anos que seu Edmundo não adiciona mais um cartão premiado a sua coleção de vitórias. Mesmo assim, o homem que passou mais da metade da vida fazendo apostas continua sonhando. Se não for hoje, amanhã vai ser outro dia. Ele afirma que pode esquecer de dormir, mas não de jogar na loteria.